Notícias de interesse empresarial
Fonte: Valor Econômico - 16/02/2012
Renda puxa carga tributária para
34% do PIB
A carga tributária subiu de 32,72% do
Produto Interno Bruto (PIB) em 2010 para 33,99% do PIB em 2011, puxada
principalmente pela alta expressiva dos impostos ligados à renda,
responsável por metade desse salto, segundo estimativas do economista
Bernard Appy, ex-secretário de Política Econômica da Fazenda e diretor
da LCA Consultores. Também subiram os tributos relacionados à folha de
salários e a bens e serviços.
Para Appy, o processo de intensa
formalização da economia - tanto de trabalhadores como de empresas - é
fundamental para explicar o movimento, assim como os ganhos expressivos
de rendimento do trabalho e de lucros das companhias. Ele acredita que a
tendência de maior formalização deve continuar nos próximos anos,
especialmente no mercado de trabalho, segmento em que a informalidade
ainda é grande.
O peso dos impostos sobre a renda subiu de
6,02% do PIB em 2010 para 6,65% no ano passado, e se deu tanto no caso
dos tributos ligados à pessoa física quanto à pessoa jurídica (nessa
rubrica, há também impostos referentes a não residentes e de outras
fontes) No caso do primeiro, passou de 2,3% para 2,46% do PIB. A alta
reflete, para Appy, tanto o impacto da maior formalização como do avanço
do rendimento. ``Há mais gente pagando imposto, e parte delas muda de
faixa de renda.`` sobre o Lucro Líquido (CSLL). Além da alta dos lucros
das companhias, Appy diz que há também um processo de formalização das
empresas. O ritmo mais forte de crescimento dos últimos anos leva um
número maior delas a sair da informalidade, assim como uma fiscalização
maior da Receita Federal, avalia.
O especialista em contas públicas Amir
Khair nota que parte da alta forte dos impostos ligados à renda das
empresas se deve ao bom desempenho da economia em 2010, quando o PIB
cresceu 7,5%. Para um grupo de empresas, os bons lucros daquele ano se
refletiram em elevado pagamento de tributos no ano passado.
Os impostos que incidem sobre a folha de
salários também aumentaram significativamente de 2010 para 2011,
passando de 8,55% para 8,83% do PIB. Em 2004, o número era de apenas
7,49% do PIB. Nesse caso, o aumento da formalização do mercado de
trabalho tem um grande peso, destaca o economista. Mesmo em 2009, quando
houve queda considerável da carga tributária total, um reflexo da
desaceleração da economia em função da crise e as desonerações
tributárias para combatê-la, a fatia desses tributos como proporção do
PIB cresceu.
Em 2004, apenas 43,5% da população ocupada
nas seis principais regiões metropolitanas tinha carteira assinada,
número que subiu para 53,6% em 2011. Apesar do aumento forte nos últimos
anos, fica claro que ainda há muitos trabalhadores na informalidade, o
que explica a aposta de Appy na perspectiva de crescimento da
formalização nos próximos anos.
Khair também destaca o avanço da
formalização, observando que a massa salarial continuou a ter um
crescimento expressivo em 2011, a despeito de o PIB ter crescido
provavelmente menos de 3%. A produção industrial ficou estagnada, o
varejo perdeu algum fôlego, mas o mercado de trabalho manteve-se
robusto, observa.
O economista Sérgio Mendonça, do
Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese),
tem citado alguns fatores que, além do crescimento mais forte da
economia, impulsionam a formalização nos últimos anos. Para ele, a
entrada em vigor da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, em 2007,
também ajudou nesse processo, ao tornar mais barata a contratação de
funcionários com carteira por empresas de menor porte.
O fato de a Cofins ter se tornado um
imposto não cumulativo em 2003 também contribuiu para o processo, diz
Mendonça. Companhias grandes pressionam os fornecedores de menor parte a
se formalizar, para ter direito aos créditos tributários, uma vez que o
tributo passou a ser cobrado pelo valor agregado.
A arrecadação de impostos ligados a bens e
serviços também teve alta significativa. Pulou de 15,89% do PIB em 2010
para 16,19% do PIB no ano passado. Nessa rubrica, destacam-se o Imposto
sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e o Imposto sobre
Produtos Industrializados (IPI).
Appy explica que estimou os tributos
federais com base nos dados de receita administrada, divulgados pela
Receita. Os números para o ICMS foram projetados com base na variação da
receita acumulada de janeiro a novembro. Para os demais tributos, ele
considerou crescimento proporcional ao PIB. ``Ou seja, os dados de 2011
são apenas uma estimativa preliminar.``
A carga tributária de 2010 ficou em 32,72%
do PIB, e não nos 33,56% do PIB divulgados no ano passado pela Receita,
porque Appy a recalculou com base no novo valor do PIB nominal, que saiu
depois da divulgação do Fisco.
Nas contas de Appy, o recorde da carga
tributária continua sendo o de 2008, de 34,1% do PIB. Em 2009, houve uma
queda razoável, para 32,58% do PIB, refletindo o mau momento da economia
- o PIB teve queda de 0,3% - e as reduções de alíquotas de impostos para
estimular a demanda. Em 2010, a economia deslanchou, com crescimento de
7,5%, mas ainda havia muitas desonerações tributárias em curso, como diz
Appy. Khair observa ainda que o mau resultado das empresas em 2009 se
refletiu em ganhos de renda mais modestos.
Ele estima um aumento mais forte da carga
tributária neste ano, para 34,42% do PIB. A diferença se dá porque Appy
e Khair avaliam de formas diferentes o impacto das receitas obtidas por
meio do Refis, o programa de renegociação de dívidas tributárias.
Ganho extra pode bancar investimento
O avanço da formalização na economia deve
continuar nos próximos anos, contribuindo para o aumento da carga
tributária mesmo sem o governo ter que lançar mão da elevação de
alíquotas ou criação de novos impostos, acredita Bernard Appy,
ex-secretário de Política Econômica da Fazenda e diretor da LCA
Consultores. Para ele, essa perspectiva abre espaço para uma estratégia
que leve a uma expansão sustentada do investimento público e privado e
ao crescimento da poupança doméstica - desde que a elevação da carga não
seja usada só para bancar o avanço das despesas correntes.
Um dos fins nobres para essa sobra fiscal
seria aumentar o investimento público em infraestrutura, algo que
ajudaria a melhorar a competitividade da economia, diz Appy.
Desonerações tributárias que incentivem as empresas a investir mais
também lhe agradam, assim como um esforço para reduzir mais rápido a
dívida pública - com aumento do superávit primário em momentos de
expansão mais forte da economia. ``Essas medidas ajudariam a reduzir
ainda mais os juros e a aumentar as perspectivas de crescimento de longo
prazo``, afirma ele.
O especialista em contas públicas Amir
Khair diz preferir que a sobra fiscal seja usada em desonerações
tributárias que estimulem o consumo e incentivem o investimento privado.
Ele vê com ceticismo a capacidade do setor público investir, por
questões de falta de competência e das amarras institucionais que
seguram o investimento do governo. ``Acho melhor que se façam concessões
para o setor privado investir.``
Já o professor Nelson Marconi, da Escola
de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, vê com bons olhos
usar a folga fiscal para aumentar o investimento, insistindo na
importância de segurar as despesas correntes (como pessoal,
aposentadorias, custeio da máquina). ``Há muito espaço para controlar
esses gastos``, afirma ele, que também considera que desonerações
tributárias, desde que bem estudadas, podem ser uma saída interessante.
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